sábado, 17 de março de 2012

Abrir os olhos


Quarta passada iniciei a terapia. Perguntaram-me se havia algum problema, se estava doente e com cara de indignação perguntaram também o motivo de estar fazendo aquilo. Depois a louca sou eu. E foi na quarta-feira passada também que descobri o quanto é difícil sentar em frente a um estranho que te olha no fundo dos olhos como quem quer saber a cor da alma e simplesmente desembestar a falar e falar. A dificuldade da fala veio para mim em forma de bicho papão e ao fim de frases soltas, a gente se vê e percebe o quanto é humana, terrivelmente humana e egoísta. Desconfiada, boba ou simplesmente parecida com um caminhão carregado de sentimentos que a cada curva caem na estrada fazendo buracos no asfalto. E deixa faltar.

Achei graça do meu medo de falar, logo eu, transparente com o que sinto, usando sempre de palavras para mandar recados, escrevendo como quem transforma pensamentos em palavras. Sempre expondo demais o que sinto e vivo. Falo demais e é desnecessário, guardarei frases, pouparei cenas. E agora é assim, volto na próxima quarta à terapia e desde já comecei a pensar no que falar com o ainda estranho psicólogo para mim. Se vou voltar nas outras quartas? Não sei. Muitas vezes falta a coragem e eu procuro nem saber quem realmente sou. Gosto mesmo é de ser muitas.

Abri um pouco mais meus olhos e gostaria de fazer da solidão um doce. Preciso tomar mais cuidado com minhas palavras, não suporto que as usem contra mim. Tão minhas. Vai ver uns e outros têm razão por me perguntar se há ou não algum problema comigo. E deve haver, sempre tem. Seria mesmo bom descobrir a cor da minha alma – ou as cores. Nessa vida não adianta apenas esperar, as expectativas insistem em passar por cima de qualquer espera e as coisas acontecem nem que seja por pensamento. A gente se engana e encanta, encanta e se engana.

A vida me pediu outra pausa. Respire devagar, use vírgulas, diminua o passo. Reveja essa sua intensidade e entrega, reflita o próximo destino do seu coração. Não sei se foi mesmo pausa ou tropeção, mas como diz uma amiga: a morte seria mais suave. Sambaram na minha cara e só restou o rímel borrado. Esperei demais, esperei que decidissem minha vida por mim e deixei que falassem por mim, tomaram as minhas dores e como se não existisse voz aqui dentro, perdi a minha identidade. Dá licença que agora eu quero passar, a vida é minha.

7 comentários:

Raquel disse...

Preciso de Terapia !

Giuliano M. disse...

Engraçado as pessoas te perguntarem se você tem algum problema... Será que elas não tem nenhum??

(devem ser tão perfeitas, deixe essa perfeição de lado então...)

Eu posso dizer por mim, terapia pode ser bom independente de tudo... A gente aprende a olhar pra dentro e tentar se entender, entender porque agimos e fazemos as coisas. Fazer terapia é poder conversar sobre coisas que não conversamos com ninguém, nem com nossos melhores amigos... É a certeza de poder falar sem se sentir bobo idiota.

Acho que tudo isso pode ser bom, vai te ajudar a enxergar e entender todas as cores da sua vida. Você vai ver cores clara, bonitas... Mas vai ver também umas cores escuras, tristes... Saiba que todas juntas formam uma linda obra de arte, que é você !!

Érica Verônica disse...

Florzinha,
Lembrei da música "Tempo Perdido" do Legião Urbana, lendo seu texto.
Eu gostei. Adorei

Beijos, saudades

monologo de nanquim disse...

Oi, sou eu de novo, passando por aqui, para não deixar fazer falta, ou melhor, para dizer que tem falta demais em mim também.
Se seve de consolo, porque no fundo eu sei que não deve servir, eu já estive lá, naquele divã, no meio dessas palavras soltas, de perguntas retóricas, feitas por um estranho que nem por uma vida conseguiria entender quem eu sou, ou o que eu estava fazendo lá, até hoje eu não sei, e venho me estudando há anos!
No fundo está todo mundo aprendendo, só que, tem gente que doi mais, gente que não deixa o vento passar desapercebido, gente que o coração sangra, mas a alma não endurece. Talvez vc seja assim, como eu, e nesse caso, não há conselho, não há receita e a cura é absolutamente relativa.
Mas sabe um segredo? Quem escreve tem um dom único, e depois de escrito, deixa quem quiser falar, o importante no final das contas é o que o papel dividiu com vc!!

Abraço fraterno!

Alice disse...

A primeira sessao sempre a mais dificil ,as outras vao fluir melhor,eu sempre tentava descobrir algo sobre o psicologo tbm pra me sentir mais em casa.
Mas o meu habito de falar pelos cutuvelos sempre ganhou .

Fillipa disse...

Lindo blog :)
Estou te seguindo, se puder passa no meu blog para conhecer..
http://palavrasaoventoo.blogspot.com.br/
Beijão e um bom final de semana!

Luana disse...

Preciso de terapia também, e a sensação é que todos nós precisamos. Tão fácil é, as vezes, lidar com as palavras e noutras, quando é para mostrar tudo que tem aqui dentro, a parte mais escura, ai elas pesam e teimam em não sair...

Você escreve mto bem, vou te acompanhar. Bjs!

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