quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O problema de ser único


Às vezes você experimenta um sapato. Ele é maravilho, combina exatamente com seu pé, é confortável, você se sente a Cinderela, mas o preço dói, faz latejar. Você resolve pensar um pouco, diz que vai dar mais uma voltinha. O vendedor que de bobo não tem nada te diz que é o último e único par. Puta que o pariu, é o que você pensa. Depois você dá um sorrisinho de lado e pensa que o vendedor está querendo dar uma de esperto pra cima de você, que não é o último par, afinal, ele só quer vender. Ele não se importa com seu bolso, aquele bolso que mesmo ficando vazio vai pesar e muito. Mas vai que o vendedor está dizendo a verdade? É o único sapatinho e é seu sonho de consumo. Você pensa no quanto será maravilhoso ter aquele sapato e no quanto ele é único e essa é a melhor parte, pois só você terá o prazer que calçar aquela beleza de sapato. O seu sapato é único. Ou pelo menos deveria ser segundo o vendedor.

Você tem uma amiga. Uma amiga que convive com você por mais de dez anos. Você realmente confia na amiga e ela realmente te conta todos os capítulos da vida e da novela que você perde todos os dias. Momentos bons, momentos ruins, vocês estavam juntas. Sorrindo, chorando, vocês estavam juntas. Nas situações mais engraçadas da vida, ela estava ao seu lado, nas vezes que vocês se enrolaram, se esconderam, vocês estavam juntas. Nos dias de crise existências, ela te ouviu. Suas teorias, ela te ouviu. Era pra você que ela ligava no dia seguinte para contar todos os pontos altos e baixos da noite anterior. Uma amizade de dar inveja a qualquer um. Mas aí, num dia de calor, no primeiro dia da faculdade, sua amiga conhece gente nova, faz novas amizades, muda os assuntos, assuntos que você não conhece. Você se sente meio peixinho fora da lagoa, meio pulga sem cachorro. Ela te conta de uma amiga da faculdade, uma garota aí que ela acabou de conhecer. Você torce o nariz... Pff, uma menina que ela acabou de conhecer! Nossa amizade é muito mais forte, muito mais bonita, muito mais longa. Sou muito melhor que nova amiga, eu sou única. Realmente você é única e jamais alguém terá poder para te substituir, mas quem disse que a nova amiga é tão comum assim? Os segredos podem ser os mesmos mas as experiências serão novas e também inesquecíveis. Você fica com ciúmes, afinal, você deveria ser a única melhor amiga.

Você tem um namorado. Desses lindos, com sorriso largo, ombros largos, cabelo lindo, do tipo que cai nos olhos e ele passa a mão suavemente para retirá-los (isso te faz passar mal de tanto tesão), ele tem a voz grossa, fala no seu ouvido, te deixa arrepiada. Ele te diz o quanto você é linda, ele abre a porta do carro, ele puxa a cadeira, ele tem um cheiro maravilhoso. Ele te pega de jeito, ele tem um beijo quente. Ele diz que quer casar com você e ter quatro filhos. Ele diz que te ama, você diz que o ama. Você tem o amor maior do mundo, vocês completaram três anos de namoro. Você quase explode de tanto amor e de tanta felicidade. Aquele é o homem da sua vida. Ninguém ama tanto quanto você. Seu amor é único e ninguém ama mais do que você.

Você tem um problema. Você não consegue dormir, você não come direito, você não quer conversar, qualquer cena de novela te faz chorar. Pra você a vida não tem mais saída, não há solução, o mundo deve acabar, o seu mundo já acabou. Você pensa em suicídio. Seu sofrimento é grande demais, sua dor machuca demais, ninguém te entende, você sofre. Seu sofrimento ganha destaque na sua vida. Não existe fome, não existe AIDS, não existe câncer, não existe gente desempregada. Não importa os mendigos, os que moram na rua, nada mais importa. Nada é maior do que seu sofrimento. Logo você, cheio de saúde, tão cheio de amigos. Um sofrimento tão único. Uma dor que só você sente.

Me parece muito cômodo fechar os olhos para o mundo e esquecer que os sentimentos existem para todos. O que sentimos tem o mesmo nome: amor, ódio, paz, ciúme, amizade, paixão, admiração, dor, o que muda é forma de sentir. Mas por muitas vezes, por dar valor demais a pequenas coisas, fazemos de uma pedra no caminho virar um abismo sem volta. Valorizamos o grande e sempre nos esquecemos do pequeno. Vale mais lembrar de um acontecimento ruim do que recordar um lindo sorriso que recebemos ao longo do dia.

Dizem por aí que cada um carrega a cruz que merece, eu diria mais, cada um carrega a cruz que cria, alimenta e imagina.

5 comentários:

Érica Verônica disse...

"...muitas vezes, por dar valor demais a pequenas coisas, fazemos de uma pedra no caminho virar um abismo sem volta."

Esse trecho vai para meu bloquinho de anotações.

Luna Sanchez disse...

É isso, a gente tem o que quer ter, pois a situação se apresenta sem pedir licença, a forma que vamos encará-la e lidar com ela é escolha inteiramente nossa, sempre.

Até a dose de drama que vamos usar, o quanto de coragem e objetividade vamos empregar, tudo por nossa conta e risco.

Valorizar mais o que não presta e menos o que existe de melhor é burrice, claro, mas é escolha nossa também, antes de mais nada.

(Gostei demais dos paralelos, Nara.)

Beijos de bom final de semana, florzinha. ^^

ℓυηα

Ana Elisa disse...

"Você tem uma amiga."

Daniel Cabral disse...

A vida dá muitas voltas. As pessoas passam por nós e é bom pensar que é bonito plantar as flores no jardim pra que as borboletas venham até nós. BJS

Luna Sanchez disse...

Nara, coisa fofa, eu trouxe um selo pra ti :

http://coleccion-recuerdo.blogspot.com/2009/09/olha-que-blog-maneiro.html

;)

Beeeeijo,

ℓυηα

Aviso

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