terça-feira, 4 de agosto de 2009

... e fica aquela vergonha

A verdade é que eu nunca gostei de ver você. Achava estranho o jeito que você falava, sua pouca intimidade e as mesmas perguntas sobre o tempo e a escola. Diziam que eu tinha vergonha de você, eu me sentia culpada por isso, o problema era comigo, né? Eu que não te dava espaço, eu que estava sempre calada e cheia de ahans.

Sempre notei a forma que você me apresentava às pessoas, seus olhos falavam por você, seus olhos deixavam a situação bem clara. Eu ficava sem graça, as pessoas pensavam de qual buraco você me tirou, de onde eu surgi, ou como isso foi acontecer. Você deveria levar um espelho no bolso. Me deixa ser seu espelho pelo menos uma vez. A sua cara era a seguinte: Você me apresentava, você dizia quem eu era, nosso parentesco, você não me olhava nos olhos, seus olhos imploravam segredo, imploravam um “não me julgue por isso”. Era engraçada a cara de surpresa que faziam, eu sempre era elogiada de alguma forma, como uma recompensa ou um consolo.

Ele se sentou do lado direito da mesa, ela ficou em frente a ele. Ela pediu uma Coca-Cola, ele um copo de alguma bebida alcoólica que agora não me recordo o nome, talvez fosse Vergonha Na Cara. Ele bebia rápido, como se precisasse de coragem. A Coca-Cola descia leve, estava calor, cada gole era extremamente refrescante. Havia um silêncio, a menina olhava para os lados, ela não queria olhar para o homem em sua frente. Ele tira o celular do bolso, diz com naturalidade que ali estava a foto dos seus filhos.

Engraçado, até ali não havia filhos.

Sabe que pela primeira vez eu vi a vergonha na sua cara? Pela primeira vez eu soube quem é você, agora eu sei, é melhor assim. Pela primeira vez eu consegui te olhar nos olhos, eu te fiz perguntas, eu falei porque eu queria e não porque você me pedia respostas curtas.

Me pergunto como você dorme. Que coragem, que cara de pau. Eu não teria estômago, é que eu tenho uma lombriga chamada consciência. Acredite, às vezes ela come demais, fica pesada, eu tento vomitar, colocar aquilo pra fora, mas só existe um remédio, tarja preta, meu bem. Genericamente é chamado de Verdade.

7 comentários:

Ana Elisa disse...

Eu tenho muito orgulho de ser sua amiga.

Érica Verônica disse...

Narinha... que medo deste seu texto!

Del Lopes disse...

=S. Sem mais.

Luna Sanchez disse...

Nara,

Excelente texto, as palavras estão colocadas como punhais. Quase se pode sentir a vergonha que, finalmente, resolveu brotar na cara dele.

Gostei muito.

Beijo,

ℓυηα

Anônimo disse...

Narinha Quanto orgulho do que tem dentro dessa cachola uai.. Quando crescer quer escrever assim. Bjs

Daniel Cabral disse...

Engraçado que quem te ve escrevendo tão direitinho não imagina o quão vc é doida hehe.

nanda disse...

Sou sua fã Nara!!!
tia Rosangela.

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